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sábado, 7 de março de 2026

A divina comédia e os percursos tortuosos da condição humana

 


Rogério Henrique Castro Rocha[1]

 

 

“Da nossa vida, em meio da jornada,

achei-me numa selva tenebrosa,

tendo perdido a verdadeira estrada.”

  

A obra mais famosa de Dante Alighieri foi escrita há mais de 705 anos. Ainda assim, seus versos continuam a impactar gerações de leitores que tiveram contato com a obra mestra de sua criação.

A “Divina Comédia”, seu poema mais sublime, é ao mesmo tempo a coroação de seu amor platônico por Beatriz de Folco Portinari (a quem dedicou vários de seus escritos mais conhecidos) e o ápice de uma imaginação que legou ao mundo um escrito insuperável em linguagem popular.

Ressalte-se que a comédia de que trata Dante é divina, ou seja, não é uma comédia qualquer. Ao contrário da tragédia, possui um final feliz (e no Paraíso, por sinal). Seu sentido, portanto, não é simples e raso; é denso, amplo, complexo, dramático. Afinal, trata-se de um livro cheio de alegorias, simbolismos e significações. Uma obra de fantasia cujos limites estéticos e criativos são, ainda hoje, difíceis de serem emulados.

Impende frisar ainda, em torno de sua importância (BRAZ, 2023), que ela “mostrou como uma língua que não fosse o latim (...), pôde ser capaz de criar, sem nenhuma intimidação, uma obra-prima na altura da Odisseia, da Eneida, do teatro grego.”

O poema dantesco, composto por versos decassílabos organizados em tercetos com rimas dispostas no esquema ABA/BCB/CDC, ao longo de cem cantos, metaforiza o drama da condição humana numa narrativa que confere à personagem central (o próprio Dante) e às personagens que o circundam (Virgílio, Beatriz, São Bernardo e outras figuras conhecidas da época) a tarefa de empreender uma jornada de caráter ascensional por vários planos, círculos ou mundos, com múltiplas divisões, para reencontrar “o bom caminho abandonado.”

Daí o motivo pelo qual a personagem inicia a aventura nos círculos mais profundos do Inferno, galgando, não sem apuros e descobertas, os patamares superiores do Purgatório e o tão almejado Paraíso, imagens que possuíam grande força no imaginário do período medieval.

No trajeto, será guiado pelo poeta Virgílio e, posteriormente, adentrará o Paraíso, alcançando o Céu ladeado por Beatriz, eterna musa idealizada que, na obra, assume a tarefa de retirá-lo da “selva escura”, ajudá-lo a reencontrar a “verdadeira estrada” e escapar do inferno.

Essa mulher idealizada, dentro do enredo, é também aquela que, por meio do seu espírito amoroso e iluminado, simboliza a sublimação da virtude. No céu, Dante encontrará, por fim, o lume do Sol, de Deus, da vida verdadeira, contemplada na transformação íntima que se lhe é operada após a árdua travessia desde a escuridão da selva, na qual estivera perdido e desviado (como vemos no Inferno - Canto I), até a graça, o enlevo e a glória dos céus paradisíacos, onde, serenada a agitação do ânimo, a personagem central, enfim, abandona a errância.

O livro, além de cativante, possui inúmeras alegorias e mensagens que podem ensinar muito aos leitores. Dentre elas, há algumas que me chamam atenção.

A primeira é a de que toda jornada concorre, em algum grau, para a abertura da possibilidade de uma reforma interior. Além de conferir conhecimento a quem a executa, a travessia da vida, com seus percalços e surpresas, é capaz de moldar uma nova pessoa, dotando-a de outras experiências, valores e virtudes.

A segunda diz respeito às diversas maneiras encontradas para julgar, criticar e condenar a ganância, os vícios e as deformações do poder.

A terceira denuncia a extrema ambiguidade da condição humana, capaz de queda e ascensão, sombra e luz, bondade e maldade. Isso mostra que temos em nós, concomitantemente, as vertentes desse pêndulo, as feras e os monstros que personificam nossas vicissitudes.

Para finalizar, devo afirmar que a mensagem que mais toca minha alma, no que se refere ao humanismo radical presente na obra-prima de Dante Alighieri, é justamente a da alteridade. Isso me leva a deduzir que, se não fossem seus guias — aqueles que o acompanharam durante a difícil e longa jornada —, Dante talvez não conseguisse chegar ao fim e alcançar o paraíso. Trouxe, portanto, para mim a sólida constatação de que ninguém se salva sozinho.

 

 

Referências:

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. D. Giosa: São Paulo, 2003.

BRAZ, Renan. Publicação de “A Divina Comédia”. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/133070. Acesso em 06/03/202 

MELO, Alessandro. A divina comédia sob a luz do cristianismo. 3. ed. Divinópolis, MG: Ed. do autor, 2023.



[1]      Graduado em Direito e Filosofia pela UFMA, Mestre em Criminologia pela UFP – Porto/PT, escritor, palestrante e livre pensador.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Comercial da Air France: uma pequena obra-prima da propaganda

Há algum tempo os canais por assinatura vêm mostrando um comercial da Air France que, em minha opinião, é um dos mais belos e  tocantes dos últimos anos. 

A fórmula dessa brilhante publicidade é basicamente a seguinte: a magia da música clássica (com a tocante trilha sonora de um Adagio de Mozart ao fundo) e a coreografia de um ballet (dançado, com extrema leveza, por um casal vestido de branco, como que a bailar sobre as nuvens).

Se você já viu, reveja! Para quem ainda não assistiu, vejam um claro exemplo de como se produz uma peça de marketing simples e sensível mas, ao mesmo tempo, dotada de imensa poesia e lirismo. Maravilhoso!



P.S: A dança foi coreografada por Angelin Preljocaj e estrelada pelos bailarinos Benjamin Millepied e Virginia Caussin. O comercial foi filmado no deserto do Marrocos, sobre 400 metros quadrados de espelho no chão, numa única sequência.

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