sexta-feira, 21 de agosto de 2020

SEIS LIÇÕES DE VIDA QUE EXUPÉRY ME ENSINOU

 

SEIS LIÇÕES DE VIDA QUE EXUPÉRY ME ENSINOU

 

                                                                                               Por Rogério Rocha

 

 

Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe, Conde de Saint-Exupéry, nome dado a Antoine de Saint-Exupéry, escritor, ilustrador e piloto de aviões. Simplesmente o autor francês mais lido e traduzido até hoje, tendo obras publicadas em 26 (vinte e seis) idiomas e em, aproximadamente, 260 (duzentas e sessenta) línguas e dialetos. Fato que por si só já bastaria para colocá-lo num lugar de honra na literatura universal.

Parte considerável desse fenômeno tem ligação com duas de suas maiores contribuições à imaginação humana: “O Pequeno Príncipe” (1943), que vendeu 80 (oitenta) milhões de exemplares no mundo, e “A Cidadela” (1948), obra póstuma que é a síntese de suas concepções filosóficas. Dois livros que reputo fundamentais ao Ocidente e cujas qualidades e características ajudaram a moldar pessoas, transformar vidas e influenciar centenas de escritores durante muitas gerações.

Mas o que me trouxe a este texto não foram as obras, mas o homem, a pessoa humana do escritor Exupéry, chamado de Zé Perri pelos moradores de Campeche, comunidade de pescadores na ilha de Santa Catarina, onde, entre 1929 a 1931, por várias vezes esteve, quando trabalhava no serviço aéreo postal francês pilotando os aviões da empresa Latécoère, numa rota monumental que ia de Toulouse a Buenos Aires. Convivência essa documentada em seu livro “Voo Noturno” (1931), que reúne também passagens de sua experiência e amizades com a gente simples daquele lugar.

Movido pela magnitude dessa biografia, e mais que isso, pela força viva da figura simples e sensível de Exupéry, apresento aqui seis lições de vida que ele me ensinou.

A primeira veio da sua infância e está ligada ao irmão François. Criados por muitas mulheres (a mãe, uma tia idosa, amas, governantas e três irmãs), ele e seu irmão (dois anos mais jovem) nutriam uma grande rivalidade. Um dia, contudo, aos 15 (quinze) anos, François adoece. Doença que se arrastaria por um mês, até que em dada noite a enfermeira bate à porta de seu quarto e avisa a Antoine que seu irmão queria vê-lo. Chegando ao quarto do doente, e à beira da cama, ele segura em suas mãos e diz: “Pega um papel e toma nota! Vou morrer! Vou morrer e quero que tomes nota de tudo o que vou te deixar.” Incrédulo, Antoine então diz: “Não, esqueça! Cura-te!” Ainda assim, com a insistência do irmão, toma nota e arrola uma lista de bens. Na mesmo noite, François morreria.

O impacto da perda prematura do irmão pesou forte em sua alma. A partir desse dia, Exupéry aprenderia a jamais ser um materialista. A vida (ou a morte) lhe ensinara a compreender a força dos mais belos e profundos laços humanos.

A segunda lição extraio da sua passagem pela Latécoère, empresa que levava o nome do homem que imaginou o que poderia fazer com aviões (invento que, à época, ainda engatinhava). Com ele é criada a primeira companhia de correio postal aéreo da França. Uma ideia a que fora desaconselhado e que se imaginava irrealizável. Talvez por isso, seu criador então afirmava: “Só nos falta uma coisa: realizá-la.” E com ele, lá estava Antoine, um destemido piloto, apaixonado pelo voo, a realizar viagens transoceânicas, num avião com poucas aparelhagens, sem itens de segurança e durante longos trechos à noite, ensinando àqueles que ouvem os que dizem que suas ideias não podem ser realizadas o seguinte: mãos à obra, ajam!

A terceira lição de vida que aprendi com ele vem do deserto. Sim, o deserto em Saint-Exupéry tem uma presença decisiva. É forte, brilha, fala, envolve, aquece, acolhe, silencia e amedronta. Está no encontro do pequeno príncipe com o aviador solitário (inspirado no próprio autor, por certo). Está nos contos, histórias, imagens e memórias poético-filosóficas da sua “A cidadela”, apresentada em linguagem alegórica, quase bíblica. Afinal, para unir os homens e carregar mensagens, em suas cartas e postagens, sobrevoava o Saara, correndo risco de ser abatido pelos egípcios. Os mesmos egípcios com quem passara muitas noites a conversar, construindo laços de amizade com pessoas que antes eram meras desconhecidas. O deserto, portanto, até poderia matá-lo, mas serviu-lhe de inspiração, evocando, em toda sua aridez, o oposto, a humanidade de quem pretendia apenas tentar compreender o diferente de um outro modo.

A partir deste aprendizado, ensinou-me ainda mais. Uma quarta lição, conexa à anaterior: a tolerância. Tolerar o diferente é um exemplo de imensa humanidade. Justamente um dos traços que melhor caracterizavam a personalidade do fascinante escritor francês, que ainda hoje muito nos diz. Aqui prefiro que ele mesmo fale. Ouçam! “Se és diferente de mim, irmão, em vez de me prejudicares, tu me enriqueces. É essa diferença que faz a minha riqueza. E é a minha riqueza que faz a tua diferença.”

Chego agora ao quinto ensinamento, certo de que sua grande dor era escrever. Escrever não era um bálsamo. Era tormenta. Antoine reescrevia quinze, vinte, trinta vezes seus textos. Era um artífice obstinado, demiurgo onipotente em suas lindas histórias, pensamentos e palavras. Buscava, talvez por isso, uma linguagem universal. Escrevia para as gerações futuras. Até porque, como ele mesmo dizia, “o importante é o invisível”. O invisível do porvir, dos sentimentos ainda não revelados, dos projetos humanos, de tudo que ainda não é. O invisível do alcançar, do desbravar. Voava à noite quando não existiam instrumentos para isso. Voava às cegas. Olhava para onde queria ir e os meios apareciam. Apareciam os caminhos no ar. Era a vontade, só a vontade o que contava. Cruzava desertos, terras e oceanos. E conseguia. Ele conseguia. Afinal, o que é preciso dizer aos homens para que sejam homens? É preciso dizer-lhes sobre a essência das coisas. Sobre a natureza das coisas, sobre o inefável. Porque o invisível aos olhos só é visto pelo coração. E o que é do íntimo do coração, só se vê ao fechar os olhos.

Mas abro os meus novamente, respiro fundo e chego ao fim desse trajeto de aprendizados, dessas lições, desse imenso voo noturno sobre o meu próprio Saara, carregado de pesadas esperanças e guardando em meu coração (único lugar onde isso tudo poderia caber) a sexta lição que o mestre Saint-Exupéry me ensinou, e que aqui sintetizo numa frase: “Não esperes nada do homem se ele só trabalha para sua vida e não por sua eternidade.”

Obrigado Antoine, mestre inspirador! Professor de superação de si mesmo.

domingo, 2 de agosto de 2020

CELEBRANDO O POETA (À MEMÓRIA DE NAURO MACHADO)

Dois poemas de Nauro Machado (1935-2015)

NAURO MACHADO (02/08/1935 – 28/11/2015)

 

Nascido em 02 de agosto de 1935, em São Luís/MA, Nauro Diniz Machado, casado com a escritora Arlete Nogueira da Cruz, foi filho de Torquato Rodrigues Machado e Maria de Lourdes Diniz Machado.

Sua poesia questiona a essência e destinação do humano, e é atravessada por intensa reflexão existencial, um demarcado tom de angústia, pelas dores do viver e pelo sentimento de finitude. Seus versos trazem peso e densidade viscerais.

Em Nauro Machado nada é leve, despretensioso ou primaveril. Tudo é urdido com meticulosa ordem, num alinhavado de ideias-força que ambientam o amálgama de sua obra poética.

Sua linguagem é pautada pela técnica de versos exemplares, sobretudo a que é utilizada na construção dos sonetos, forma que dominou de modo notável.

Um escritor que a vida fez poeta e a poesia, com seu verbo, fez habitar a existência. Existência pintada com as tintas do trágico e do drama, presa à condição fatídica do mover-se, qual pêndulo, entre a dádiva e a maldição.

Em outubro de 2015 recebeu o título de "Doutor Honoris Causa", concedido pelo Reitor da Universidade Federal do Maranhão, em decorrência de propositura apresentada pelo professor e filósofo Ivan Pessoa. Nesse mesmo ano, lançou seu último livro: O baldio som de Deus. Na ocasião, revelou ter mais cinco livros prontos, ainda inéditos.

Morreu aos 80 anos, em 28 de novembro de 2015, na cidade de São Luís, em decorrência de uma isquemia no trato digestivo.

Acerca da sua figura e sua produção, vejamos o que dizem alguns críticos:

“Tenho para mim que, de seu ponto de observação no litoral maranhense, Nauro Machado apascentou milhares de versos que nos explicam e dão força ao estar-aí brasileiro. O livro de agora consta de um poema só. Em 61 sextetos, rijos como chumbo e mansos como canto gregoriano, ergue o poeta um arcabouço de epopeia, com imprecações e vocativos que exigem respostas do outro lado, esse misterioso lado que está perto de todos nós e a que temos de dar satisfações a cada instante do avanço. (...) O poeta sente que é preciso soletrar o pó, perceber que o tempo não passa, nós passamos por ele, cuidando meticulosamente de cada verso, enxugando-o, polindo-o e evitando que ele ultrapasse o seu limite exato de significação.” (Antônio Olinto, ensaísta, romancista, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu e publicou estes artigos na Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, sobre dois livros de Nauro Machado)

“... em Nauro Machado, sua constante perquirição com os versos representa sua dicotomia, inerente à castração do viver humano. Utiliza-se de versos carregados de metalinguagens que evidenciam a carga semântica de seus poemas na sua "profissão de fé na poesia": um marco de autenticidade da proposta apresentada no longo percurso de sua produção literária que é a permanente reflexão com os temas universais da constante indagação do ser.” (Valderi Ximenes de Menezes, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual do Maranhão, em ensaio de 2011, intitulado Nauro Machado: a introspecção poética e o fluxo da memória)

“Nota-se na poesia de Nauro Machado uma idéia quase obsessiva de um começo que não existe mais porque já é um fim. Tudo isso ocorre de tal maneira que lhe parece estar a deslizar com o tempo, o tempo que já morre.” (Magaly Trindade Gonçalves, em artigo do ano de 2010 da revista Linguagem Viva, n.º 256, ano XXI)

“Tal como Heidegger, Nauro Machado também expõe a diferença radical entre o ser o e o ente. O “ser-aí” é aquilo que é característico do homem, mas apenas o homem existe como um “ser-aí” capaz de revelar-se, em uma tomada de consciência como a oferecida por meio da linguagem. O homem tem, portanto, a possibilidade de vir à tona de si mesmo e apresentar-se enquanto tal, ou seja, como um ser que se manifesta no tempo, dotado de temporalidade e existência.” (Ricardo André Ferreira Martins, no artigo intitulado Ser, angústia e poesia: uma leitura heideggeriana de Nauro Machado, publicado na revista Signótica, v. 24, n. 1, jan./jun. 2012)


No meu livro “Pedra dos Olhos” (São Luís: Hamsa, 2019) há um poema intitulado “Nauro” (poema extra), feito em homenagem ao grande poeta ludovicense, que reproduzo aqui, e sobre o qual a poetisa Laura Amélia Damous Duailibe, autora de Brevíssima canção do amor constante (1987) e membro da Academia Maranhense de Letras, me confidenciou ser o poema que gostaria de ter escrito para ele.

 

Nauro (poema extra)

 

Eu o vejo descendo a pé

A sempre velha Rua de Nazaré...

Os velhos prédios, as velhas pedras

Acenam pra ele no passar infindo.

Leva à mão direita

Um guarda-chuva negro, grande

E pontudo...

Na mão esquerda uma pasta

(que ao poeta nada basta).

Na mão direita seu guarda-chuva

(guarda-preces, guarda-dores, guarda-escárnios),

tal qual bengala, margeia a beira,

feia, fria e dura beira de calçada,

como se escrevesse, como se traçasse,

nela e com ela, uma outra linha,

paralela, imaginária...

ponteando o seu passar.

Nauro desce a Praia Grande.

Seu corpo é um grande copo,

Corpo translúcido, brilhante,

Cabendo no fluxo de um líquido

Profuso que cai no vazio vazante

Do continente, conteúdo que espuma

Da cabeça aos pés e se banha no rio

Do temporário, que o espera sobre

As mesmas mesas dos mesmos bares,

Refúgio presente, pleno sacrário

De tudo que sorve a dor e proclama

Suas relíquias no objeto incendiário.

 

Vejo daqui, desta sacada,

Bem de cima, bem do alto,

Tua cabeça descampada.

Vejo da sacada deste velho casarão.

Tua cabeça é como um vão.

A tua sombra perene,

teus versos enchendo a rua,

subindo aos ares, lambendo o chão,

onde correm passos que varrem

a paisagem, paisagem solene

das pedras que dormem nuas.

Silêncio, silêncio meu poeta!

Estou afeito a curtir pensamentos

Que escrevem mãos caladas.

Vago também pelos vales e valas,

Pelas vagas onde ecoam os berros

De tua voz grave e trágica.

Ecoa no espaço azul do sereno,

Vige ainda no tempo o teu dito.

Oh! poeta, que me ofusca!

 

Oh! tu, poeta, és quase adivinho,

És quase profeta na encruzilhada.

 

Tua fala, teu andar desconcertante,

Teu acuro com a essência da palavra,

Prisão ferrenha, destino amargo

e porto incandescente.

Em teu ombro carregas, cansado,

o altar de Apolo.

Mesmo assim, celebras Dionísio.

 

Oh! tu, amena criatura! Solitário ser

Que transita nossas ruas escuras,

Confiscando as posses desse sítio falido,

Confundindo-se à fauna efêmera

Das desvanecidas multidões,

Que, pouco a pouco, sucumbem

à dilaceração furiosa do teu logos,

semente negra que se espalha

sob os restos de tudo que jaz,

perfumando com ácido aroma

nossa triste e perpétua mortalha.

 

Dentro de ti, de tua pasta,

Não sei o que carregas.

(Talvez carregue mágoas!)

Talvez nela guardes poemas novos,

poemas velhos, poesias enjauladas...

Na tua pasta (ó, meu poeta!) só cabe a tua alma.

Há pouco espaço para o ser que não és.

 

Assim vai, descendo o poeta, sempre a pé,

A mais que velha Rua de Nazaré.

 

Poeta nefasto, poeta nefando...

Música trágica tocando ao fundo,

Qual trilha sonora do meu desencanto.

Uma criatura qualquer, filha das ruas,

Passante sem rumo, o saúda com palavras

Que, à distância, não as ouço dizer,

 

Vai, rua abaixo, o poeta... sismo ambulante.

 

Dele saem gotas frias de suor,

Banhando sua carne inquieta,

Sua magnitude metafísica.

Poeta malvisto, mas poeta que se guarda.

Poeta sem lugar, posto que abarca

O tudo e o nada.

 

São Luís é pequena... São Luís é parca...

A ilha é pequena, é pouca, esquálida...

Não preenche o vazio de sua estrada,

Pois fenece antes, apodrece em suas mãos,

Sem chegar ao profundo, sem abrir as portas

E adentrar as salas desertas que afloram

no além-palavra.

 

Por fim, para quem quiser conhecer um pouco da sua vasta produção, trago aqui

5 Poemas de Nauro Machado:

 

CHEGADA A HORA O SONHO SERÁ TERRA

 

Chegada a hora o sonho será terra,
o medo dará seu último vintém,
e o passado e o futuro serão guerra
do não-ser sobre terras de ninguém
Árvore gémea à que em dor se enterra,
o céu descerá em busca de outro além,
e unidos ambos, corpo e céu, a alma er-
rará distante, mas morta, também.
Será possível mesmo o fim de tudo,
tudo tão rápido? Ó pássaro ao vento,
ó ave sombria: cantai num templo mudo,
a atroz saudade da alma nunca vista,
passo perdido em negro firmamento,
paisagem morta — que a terra conquista!

 

PEQUENA ODE A TRÓIA


Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

A SENTENÇA



Ó solidão, minha mãe
em toda parte do corpo,
meu escaler sem esperança
no oceano dos naufrágios.

Só as árvores estão vivas
no meu espírito que é morto.
Ó sinos, pombas errantes
no bronze da eternidade!

Remai, tempo de amargura,
às praias sem amanhã.
Ó solidão, minha mãe,
medusa erguida sem pai.

 

PRECE À BOCA DA MINHA ALMA



Não te transformes em bicho,
ó forma incorpórea minha,
só porque animal capricho
perdeu o humano que eu tinha.

Guarda, do animal, o alheio
esquecimento. E somente.
Mas lembra aquele outro seio
que te nutriu a boca e a mente.

E recorda, sobretudo,
que não babas ou engatinhas,
a não ser quando te escuto
pelos becos, dentre as vinhas.

Vive como um homem morre:
em solidão e na esperança.
guardando a fé que socorre
em mim, semivelho, a criança.

Mas não te tornes em bicho,
nem percas o ser humano,
só porque a tara (ou o capricho)
deu-me este existir insano.

 

SONETO 2

 

Que me não mate o tempo ainda agora

na minha vida feita de um futuro

para negar-me ao vivo desta aurora

a amanhecer após num sol escuro.

 

Que enquanto não me cegue a última hora

a nos fazer reféns do eterno muro,

me a vida seja como um beijo fora

dado a um cadáver ainda não frio e duro.

 

E a ser da vida um fruto já tão tardo,

no dissabor vencido da revolta,

esfriando o fogo que no meu peito ardo

 

em chama estéril a que a cinza escolta,

que enfim me faça o tempo o findo tardo

de quem à terra para sempre volta.

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