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SÃO LUÍS, MARANHÃO, Brazil

sábado, 27 de junho de 2026

PARA ALÉM DE UM SIMPLES PRAZER

 Por Rogério Rocha

Imagem ilustrativa criada por Inteligência Artificial


Outro dia, vi e ouvi o chileno Roberto Bolaño, numa entrevista, fazer uma confissão no mínimo interessante: que seu maior prazer estava na leitura, não na escrita. Na mesma ocasião, afirmou que, se ficasse rico, deixaria de escrever. Tais considerações podem soar estranhas quando vindas de um grande escritor, mas é justamente por isso que ganham força, sobretudo ao ressaltarem, nas entrelinhas, que a literatura começa com o leitor.

Compreendo o que o autor quis dizer, pois, em mim, essa opinião encontra concordância quase instantânea. A leitura sempre me proporcionou prazer maior e mais duradouro que a escrita. Escrever é um ato antinatural, de natureza argumentativa, que demanda muito da racionalidade lógica, um trabalho de especialista, uma luta inglória com as palavras diante da persistente suspeita quanto ao caminho escolhido. Ler, ao contrário, é um ato de entrega, uma abertura, um estado de recepção (amorosa ou não) do produto do esforço criativo de outrem. Quando leio, mesmo que conteúdos de extrema complexidade, percebo que não preciso provar nada a ninguém. Não preciso vencer a batalha contra o vazio da página (ou da tela em branco). Não necessito construir a arquitetura de um novo mundo. Só preciso caminhar pelo texto: posso me perder em devaneios, avançar de forma rápida, voltar a um capítulo, demorar-me em um parágrafo ou outro, para, simplesmente, esquecer, por um tempo, as agruras cotidianas.

A escrita tem seus méritos, é verdade. Há monumentos colossais erigidos em imagens, formas e ritmos que se acomodam em ideias de rara beleza e vigor, ganhando vida fora da mente de seus criadores. Chegar a esse estágio de excelência exige, entretanto, disciplina férrea, altas doses de paciência e coragem suficiente para lidar com o sentimento constante da iminência do fracasso. Exige, principalmente, compreender a distância que há entre o que pretendemos e aquilo que conseguimos colocar no papel. O texto sonhado, intuído, almejado, é quase sempre muito mais bonito do que o que de forma efetiva é produzido. Em meio a esse trajeto, entre o que foi idealizado e o realmente atingido, aparece, por fim, a obra: o efeito estético de um ofício artístico que contabiliza derrotas e vitórias.

A leitura proporciona múltiplas experiências; nos permite, dentre outras coisas, viver vidas sem a obrigação de criá-las. Somos preenchidos pelas visões nascidas de outros intelectos e reelaboradas pelo nosso. Somos tocados por sensibilidades que nos convidam a habitar universos em circunstâncias similares ou diferentes das nossas. Uma obra só se perfaz quando alguém a lê. Um livro fechado é um objeto que não cumpre a sua função social. Por esse motivo, o leitor ocupa um lugar central na literatura. Afinal, é ele quem valida o pacto ficcional (ou narrativo) com o autor; quem empresta significados às palavras; quem dá corpo às personagens; quem atualiza o conteúdo de um texto escrito há décadas ou séculos. Sem ele, até o maior dos escritores vira um nada, sem reconhecimento.

Tenho me convencido de que um dos equívocos de quem se dedica a escrever em nossa época está no fato de que lemos menos do que deveríamos e escrevemos impulsionados pela pressa, sem amadurecer ideias, ou seja, sem deixar que se consolidem em nós. Essa inversão de fatores empobrece profundamente a linguagem. Afinal, o bom texto nasce, quase sempre, de uma longa convivência com outros textos e com as percepções de autoras e autores de determinada tradição literária. Deriva, portanto, de leitura, pensamento, reflexão, interpretação, compreensão de nexos, correlações e significados. E todas essas coisas requerem tempo. Portanto, creio que, para escrever bem, é preciso ter sido previamente "atravessado" por leituras de vários tipos, épocas, origens e níveis de dificuldade.

Ler e reler, por sua vez, são gestos de elevada humildade intelectual. A releitura nos modifica porque já não somos os mesmos diante das páginas com as quais, em alguma época de nossas vidas, havíamos tomado contato. Um romance, um poema, um ensaio, uma crônica, um conto, um artigo de opinião, uma carta, quando retornam às nossas mãos (ou aos nossos olhos), podem revelar detalhes antes não percebidos. O livro permanece o mesmo, mas o leitor não. A experiência, nessas condições, é claramente renovadora.

Quando penso na minha relação com os livros, percebo que a leitura, junto à paixão pela oratória, sempre foi uma das formas mais genuínas de expressão da liberdade, o que não ocorre com a escrita. Escrever me mostrou (e tem me mostrado) vários caminhos, me trouxe algum reconhecimento, levou-me a adestrar certas inquietações e ensinou-me formas sistematizadas de organizar as ideias. Mas ler me deu algo maior: a riqueza de um mundo interior.

Nesse sentido, embora à primeira vista possa parecer diferente, a graduação hierárquica e afetiva que proponho, entre o prazer da leitura e o desafio da escrita, não elimina o que sinto em relação a essas duas magníficas experiências humanas. No âmago do que disse naquela entrevista, Bolaño sabia que a literatura não é "propriedade privada" de quem escreve, visto que também pertence a quem lê e a transforma em uma das partes mais valiosas e significativas de sua vida.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Vídeo: "O filósofo que desmascarou a vaidade"



 Neste vídeo, falo sobre a obra "Reflexões sobre a vaidade dos homens", do filósofo Matias Aires. 

Acompanhem!

O filósofo que o Brasil não reconheceu

 


Por Rogério Henrique Castro Rocha


Ao reler Matias Aires, tenho a impressão de estar diante de um autor que não recebeu, no Brasil, atenção proporcional à sua importância. Nascido em São Paulo, em 27 de março de 1705, ele é tido como “o primeiro filósofo brasileiro”, embora haja quem rejeite essa denominação pelo fato de sua inserção intelectual ter ocorrido no universo lusitano. 

Mesmo assim, o ponto central permanece: trata-se de um dos fundadores da reflexão filosófica, ligado ao Brasil pela origem, e de um autor cuja obra nos permite repensar a cronologia reducionista que costuma datar o início da filosofia brasileira em períodos muito mais tardios, isto é, no século XIX.

O centro da sua produção está situado em Reflexões sobre a vaidade dos homens, obra publicada em Lisboa no ano de 1752. Nesse livro, Aires toma a vaidade como uma força enraizada na vida humana. 

A vaidade, no horizonte dessa obra, aparece como reação humana à precariedade e à finitude da vida. Sendo assim, diria ele, buscamos durar no olhar alheio porque sabemos que somos transitórios.  

Desse modo, quando o filósofo examina o amor-próprio, a necessidade de aprovação e o jogo de aparências nos quais nos enredamos, acaba por realizar um diagnóstico de natureza universal. Talvez por isso, ainda consiga se encaixar na leitura dos indivíduos de um século que intensificou a exposição pública, a disputa por atenção e a fabricação permanente de imagens pessoais supostamente positivas e favoráveis aos juízos de aprovação social.

Ao ler suas páginas, vejo um pensador empenhado em mostrar que boa parte das nossas ações, inclusive as que parecem nobres, está atravessada pelo desejo de distinção, reconhecimento e prestígio. Nesse sentido, a vaidade, enquanto categoria central do seu pensamento, funciona como chave interpretativa para compreender as ações humanas.

Chama negativamente a minha atenção, entretanto, o fato de saber que Matias Aires, ainda hoje, é pouco reconhecido e não foi incorporado ao repertório filosófico comum, muito menos ao cânon de nossa história da filosofia. Ainda assim, quando me perguntam se ele pode ser considerado o primeiro filósofo brasileiro, minha resposta é afirmativa: ele é o primeiro grande filósofo nascido no Brasil com obra reconhecida. E quando me perguntam sobre sua importância hoje, eu afirmo que ela é dupla. De um lado, ele amplia a história da filosofia no Brasil; de outro, nos oferece uma possibilidade de leitura moral e psicológica da alma humana, soando, por isso, surpreendentemente contemporâneo.  

Referências

AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens, ou discursos moraes sobre os effeitos da vaidade. Lisboa: Officina de Francisco Luiz Ameno, 1752. Registro bibliográfico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin/USP.  

ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. “Matias Aires”. Verbete institucional.  

BERNARDO, Luís Manuel A. V. “A filosofia de Matias Aires: uma ciência do tempo?”. Argumentos: Revista de Filosofia (UFC) / ANPOF.  

COSTA, Rodrigo. “História da filosofia e exclusão de filosofias: o caso Matias Aires”. Problemata.  

PINTO, Paulo Roberto Margutti. “Reflexões sobre a vaidade dos homens: Hume e Matias Aires”. Kriterion: Revista de Filosofia.  


SILVA, Paulo José Carvalho da. “A dor da alma nas reflexões sobre a vaidade de Matias Aires”. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.

sábado, 7 de março de 2026

A divina comédia e os percursos tortuosos da condição humana

 


Rogério Henrique Castro Rocha[1]

 

 

“Da nossa vida, em meio da jornada,

achei-me numa selva tenebrosa,

tendo perdido a verdadeira estrada.”

  

A obra mais famosa de Dante Alighieri foi escrita há mais de 705 anos. Ainda assim, seus versos continuam a impactar gerações de leitores que tiveram contato com a obra mestra de sua criação.

A “Divina Comédia”, seu poema mais sublime, é ao mesmo tempo a coroação de seu amor platônico por Beatriz de Folco Portinari (a quem dedicou vários de seus escritos mais conhecidos) e o ápice de uma imaginação que legou ao mundo um escrito insuperável em linguagem popular.

Ressalte-se que a comédia de que trata Dante é divina, ou seja, não é uma comédia qualquer. Ao contrário da tragédia, possui um final feliz (e no Paraíso, por sinal). Seu sentido, portanto, não é simples e raso; é denso, amplo, complexo, dramático. Afinal, trata-se de um livro cheio de alegorias, simbolismos e significações. Uma obra de fantasia cujos limites estéticos e criativos são, ainda hoje, difíceis de serem emulados.

Impende frisar ainda, em torno de sua importância (BRAZ, 2023), que ela “mostrou como uma língua que não fosse o latim (...), pôde ser capaz de criar, sem nenhuma intimidação, uma obra-prima na altura da Odisseia, da Eneida, do teatro grego.”

O poema dantesco, composto por versos decassílabos organizados em tercetos com rimas dispostas no esquema ABA/BCB/CDC, ao longo de cem cantos, metaforiza o drama da condição humana numa narrativa que confere à personagem central (o próprio Dante) e às personagens que o circundam (Virgílio, Beatriz, São Bernardo e outras figuras conhecidas da época) a tarefa de empreender uma jornada de caráter ascensional por vários planos, círculos ou mundos, com múltiplas divisões, para reencontrar “o bom caminho abandonado.”

Daí o motivo pelo qual a personagem inicia a aventura nos círculos mais profundos do Inferno, galgando, não sem apuros e descobertas, os patamares superiores do Purgatório e o tão almejado Paraíso, imagens que possuíam grande força no imaginário do período medieval.

No trajeto, será guiado pelo poeta Virgílio e, posteriormente, adentrará o Paraíso, alcançando o Céu ladeado por Beatriz, eterna musa idealizada que, na obra, assume a tarefa de retirá-lo da “selva escura”, ajudá-lo a reencontrar a “verdadeira estrada” e escapar do inferno.

Essa mulher idealizada, dentro do enredo, é também aquela que, por meio do seu espírito amoroso e iluminado, simboliza a sublimação da virtude. No céu, Dante encontrará, por fim, o lume do Sol, de Deus, da vida verdadeira, contemplada na transformação íntima que se lhe é operada após a árdua travessia desde a escuridão da selva, na qual estivera perdido e desviado (como vemos no Inferno - Canto I), até a graça, o enlevo e a glória dos céus paradisíacos, onde, serenada a agitação do ânimo, a personagem central, enfim, abandona a errância.

O livro, além de cativante, possui inúmeras alegorias e mensagens que podem ensinar muito aos leitores. Dentre elas, há algumas que me chamam atenção.

A primeira é a de que toda jornada concorre, em algum grau, para a abertura da possibilidade de uma reforma interior. Além de conferir conhecimento a quem a executa, a travessia da vida, com seus percalços e surpresas, é capaz de moldar uma nova pessoa, dotando-a de outras experiências, valores e virtudes.

A segunda diz respeito às diversas maneiras encontradas para julgar, criticar e condenar a ganância, os vícios e as deformações do poder.

A terceira denuncia a extrema ambiguidade da condição humana, capaz de queda e ascensão, sombra e luz, bondade e maldade. Isso mostra que temos em nós, concomitantemente, as vertentes desse pêndulo, as feras e os monstros que personificam nossas vicissitudes.

Para finalizar, devo afirmar que a mensagem que mais toca minha alma, no que se refere ao humanismo radical presente na obra-prima de Dante Alighieri, é justamente a da alteridade. Isso me leva a deduzir que, se não fossem seus guias — aqueles que o acompanharam durante a difícil e longa jornada —, Dante talvez não conseguisse chegar ao fim e alcançar o paraíso. Trouxe, portanto, para mim a sólida constatação de que ninguém se salva sozinho.

 

 

Referências:

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. D. Giosa: São Paulo, 2003.

BRAZ, Renan. Publicação de “A Divina Comédia”. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/133070. Acesso em 06/03/202 

MELO, Alessandro. A divina comédia sob a luz do cristianismo. 3. ed. Divinópolis, MG: Ed. do autor, 2023.



[1]      Graduado em Direito e Filosofia pela UFMA, Mestre em Criminologia pela UFP – Porto/PT, escritor, palestrante e livre pensador.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O leitor como metáfora: um olhar do mundo pelas letras vivas

 

Rogério Henrique Castro Rocha[1]

 

“Deve-se ao leitor a existência das editoras e o sentido do seu trabalho.” [Alberto Manguel]

 

Somos, na natureza, a única espécie animal que lê e conta histórias. Que decifra e decodifica a linguagem inscrita em letras, sinais gráficos criados por nós mesmos. A única que dá sentido a elas e que, a partir do registro histórico e cultural de uma língua, cria e escreve sobre mundos imaginados, levando luz ao seu próprio mundo.

A identidade da vida parece necessitar de um reencantamento por meio da criação de um espaço de sentido que se utiliza do artifício da metaforização daquele que lê o grande livro do mundo. Mas como definir, então, o indivíduo leitor?

O escritor e bibliófilo argentino-canadense Alberto Manguel nos propõe três importantes metáforas para compreendermos essa personagem singular. São elas: a do leitor como viajante, como torre de marfim e como traça. Poderíamos falar também em um leitor rato e um leitor louco? Sim, poderíamos. Mas nossa exposição ficará restrita, aqui, unicamente, aos três conceitos apontados.

Se o mundo é um livro a ser lido, sugere Manguel [2019], a vida é o plano dessa viagem e o leitor é justamente esse viajante que avança, prossegue, caminha e dá saltos no tempo, de um mundo a outro, de um lugar a outro dentro do texto, o que aqui chamaremos de seu “espaço-tempo” alternativo. Daí a tão conhecida expressão ‘viajar no texto’. Ou seja, do leitor iniciante ao experimentado, todos ‘viajam’ nesse espaço-tempo [do espaço-texto].

O ato da leitura subentende, pois, um empenho e uma jornada através do espaço-texto, base e plataforma de lançamento para ‘outros mundos’. Ler é empenhar-se numa caminhada de descobertas onde cada um dará seu sentido às coisas. E a leitura é nada mais é do que a vida em viagem. Sendo assim, perguntarmo-nos sobre por que lemos é como perguntar sobre por que viajamos. Ademais, a leitura é uma experiência mental e corpórea, através de um processo que envolve a memória [tudo que é lido e que se torna visão em retrospecto], um presente em devir [quando dá-se o ato de ler] e um futuro, formado pela expectativa de reviver essa experiência [com novas leituras] e pela angústia diante de todo um universo de livros e textos que nunca confrontaremos.


 

Dando continuidade ao diálogo com as ideias manguelianas, chegamos à metáfora bíblica da torre [a de marfim ou aquela em que Montaigne tinha uma biblioteca e seu gabinete de leitura]. A torre guarda o simbolismo da pureza, da virgindade, do enclausuramento. O leitor ou leitora na torre de marfim é alguém que se retira do espaço social para encerrar-se em seu próprio mundo, passando a conviver ensimesmado com seus livros. Temos, portanto, a imagem de um santuário, de um refúgio ou abrigo quase inexpugnável. Símbolo também ligado, na história da literatura, à figura do intelectual diferenciado e daquele que cultiva um ideal de vida meditativa.


 

O terceiro e último perfil de leitor está vinculado à figura da traça [Lepisma saccharina], inseto primitivo que se arrasta vagarosamente e se alimenta, dentre outras coisas, da lã [das roupas e tecidos] e do papel das páginas dos impressos, dentre eles os livros. Esse bicho nos remete, segundo Alberto Manguel [2019] à representação dos que ‘devoram’ os livros. O que implica em falarmos na forma como lidamos com esses objetos culturais e, por conseguinte, em como lidamos com a própria leitura. Trata-se, portanto, de um leitor arrebatado, que fica intumescido de palavras, não se contenta com a viagem ou a torre. Necessita de algo além. Correndo o risco de perder a sanidade, desenvolve um comportamento quase patológico.


 

Podemos observar que, ao ler, estabelecemos disposições de vontade em nossas relações com o mundo exterior, interior e as obras impressas chamadas livros. Sendo assim, o leitor-viajante termina por conhecer o mundo pelos múltiplos caminhos imaginados pelo ato demiúrgico daqueles que plasmaram universos em seus escritos. Então, a leitura consiste também num comportamento ativo que leva os leitores a viajar pelas estradas do grande livro do mundo. Por sua vez, o leitor na torre de marfim, tal como o monge solitário, em seu reino de beleza interior, submerge tranquilamente nas paisagens da literatura, seu refúgio e abrigo.

Segundo Manguel:                  

 

Ler, acima de todas as outras atividades, propiciava um espaço no qual a mente poderia descolar de seu entorno cotidiano e dedicar-se a assuntos mais elevados [...] permitindo que o texto transportasse o leitor numa jornada interior”. [2017, p.88]

 

Por fim, a metáfora do leitor-traça, típico fanático, ‘devorador’ de livros, conecta-se ao fato da atitude como lidamos com a leitura. Trata-se, sobretudo, de um exemplo paradigmático de leitor arrebatado, possuído por uma pulsão, uma força maior que si mesmo. Força que cria um elo inquebrantável entre sua necessidade e o prazer extraído da fruição atenta daquelas páginas, numa experiência que muito se aproxima de uma espécie de suspensão do tempo.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que a leitura é uma forma de ser e estar no mundo. O leitor, enfim, aparece como aquilo que é: um aprendiz da vida. Ademais, a leitura e os mundos saídos da imaginação criativa, promovem o reencantamento do real. Afinal, aquilo que chamamos realidade fica muito mais interessante quando tingida pelas cores que o imaginário e seus mundos imaginados proporcionam.

 

Referência:

MANGUEL, Alberto. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: SESC São Paulo, 2017.

Verbete: traça. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lepisma_saccharina Acesso em:25/01/2026.



[1] Escritor, servidor público, livre pensador, Bacharel em Direito [UFMA], Licenciado em Filosofia [UFMA], Mestre em Criminologia pela Universidade Fernando Pessoa [Porto – Portugal], Pós-graduado em Paradigmas na pesquisa em Ética [IESMA/Faculdade Católica do Maranhão]. Criador da Iniciativa EIDOS, do DUO Litera [projetos literário-filosóficos] e dono do canal Hipertexto com Rogério Rocha [YouTube].

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