Quem sou eu

SÃO LUÍS, MARANHÃO, Brazil

sexta-feira, 24 de julho de 2026

VAR: as novas tecnologias e a crise de confiança na arbitragem

Imagem ilustrativa gerada por IA

Por Rogério Henrique Castro Rocha


A Copa do Mundo de  Futebol de 2026 foi rica em gols e polêmicas, principalmente em relação ao uso de novos recursos tecnológicos, entre os quais o famoso VAR (video assistant referee, ou árbitro assistente de vídeo, numa tradução livre). No torneio, foram empregados o impedimento semiautomático, a bola com sensor, o rastreamento tridimensional dos jogadores, além de múltiplas câmeras. A FIFA apresenta essas ferramentas como modos de obtenção de decisões mais rápidas e verificáveis. De fato, pesquisas indicam que o VAR eleva a taxa de acerto em lances decisivos: um estudo envolvendo competições de diversos países (SPITZ, WAGEMANS, MEMMERT, WILLIAMS, HELSEN, 2021, p. 147–153) detectou o aumento de 92,1% para 98,3% de acertos com a utilização do vídeo. Isso demonstra que a tecnologia pode diminuir erros, é verdade, mas nunca eliminá-los.

Desde o lançamento da ferramenta, percebi que, entre comentaristas e meios de comunicação, prevalece, em grande parte, a ideia da objetividade do sistema: uma crença fundada na suposta infalibilidade das imagens produzidas pelas métricas do vídeo-árbitro. Isso implica, no entendimento do senso comum, que aquilo que a máquina mostra é a realidade do lance, a verdade da dinâmica observada em certo instante do jogo. 

Ocorre, porém, que todas as métricas dessa parafernália tecnológica são operadas justamente pelo ser humano, aquele que realizará a validação do lance. Logo, imagens analisadas por programas específicos darão suporte às decisões dos árbitros. 

Apesar de todos esses detalhes e da limitação conhecida do ser humano, é legítimo sustentar a hipótese de que a arquitetura do VAR possui pontos vulneráveis. Esses pontos podem sofrer interferências devido à presença de múltiplos atores envolvidos no processo decisório. Esses atores incluem os demais assistentes na sala de operação do sistema, os técnicos em informática e a emissora responsável pela geração das imagens. 

Afinal, quem controla a revisão do lance pode escolher o ângulo da câmera, o enquadramento, o momento de início e término da jogada em discussão, a velocidade da reprodução do vídeo (se em câmera lenta ou velocidade normal) e o instante da falta ou pênalti, do suposto impedimento ou, por fim, de um gol mal anulado ou validado. Também pode decidir quais imagens serão encaminhadas ao árbitro de campo e quais permanecerão na cabine, sem serem exibidas na tela do VAR, dentro do campo de futebol. Isso nos permite perceber as variáveis envolvidas e o quão complexo é decidir numa situação como essa. Sobretudo diante da necessidade da construção urgente de uma narrativa visual supostamente válida que servirá de fundamento decisório para um acontecimento, ou seja, um fato objetivo.

Estamos diante de um caso de interpretação da interpretação, onde um indivíduo (o árbitro de campo) interpretou um acontecimento simultâneo, em fração de segundos, ocorrido à vista de seus olhos, dentro das regras específicas de um esporte (no caso, o futebol), e, com respaldo nelas, tomou uma decisão no transcorrer da partida. Em seguida, no calor dos acontecimentos, mas passado o fato gerador da decisão (marcação do juiz), outra(s) pessoa(s) resolvem questionar a validade daquele ato interpretativo, propondo, a partir do objeto ou acontecimento questionado, a possibilidade de uma nova interpretação que visa corrigir o erro da primeira. 

Hans Georg Gadamer (2008), em seu clássico "Verdade e método", trata a interpretação como uma fusão de horizontes (Horizontverschmelzung), no encontro dialógico (como uma conversa ou jogo) entre intérpretes. Esses intérpretes trazem um conjunto de pré-compreensões e pré-conceitos, formados numa época histórica, com seus valores, tradições e visões de mundo. Essa fusão de horizontes (o presente vivo do intérprete e o fato passado sobre o qual se discute) estabelece uma questão e exige uma resposta ativa, gerando, assim, um novo sentido sobre o acontecido, a fim de compreendê-lo. No caso em análise, o lance revisado receberá a correção necessária à justa aplicação da regra do jogo.

No campo da psicologia da percepção, estudos indicam que infrações exibidas em câmera lenta, por exemplo, tendem a ser consideradas mais graves. Portanto, embora a repetição da imagem televisiva indique o contato entre jogadores numa falta, também pode criar a falsa impressão de violência (ou deliberação) na conduta do jogador que a cometeu. A imagem reproduz um acontecimento sobre o qual o VAR oferecerá uma ou mais visões previamente selecionadas. Além desse aspecto, há também o da interpretação. Nesse caso, indivíduos sentados diante de monitores em uma cabine fechada, com pontos eletrônicos nos ouvidos, comunicam-se entre si e com o campo e emitem opiniões sobre o lance em revisão. Nesse momento, um árbitro com certa ascendência sobre o juiz da partida (por ser mais experiente ou ter mais status na categoria) poderia induzi-lo a admitir um erro que não aconteceu?

Se não, vejamos. Uma pesquisa publicada em 2025 (GARRETSEN, STOKER, JANKA, ALESSIE) destaca que as decisões do VAR continuam a depender de três fatores: a interação humana, a pressão e a dinâmica hierárquica entre os envolvidos. Ao ser chamado ao monitor, o juiz é informado por alguém que reviu o lance e entendeu que sua decisão talvez mereça reconsideração. O árbitro de campo possui, em tese, a autoridade para definir com base em sua convicção. No entanto, é inegável que ele pode sentir-se pressionado a concordar com a recomendação da cabine. Some-se a isso o viés decisório das posturas adotadas pelos condutores das partidas, que tradicionalmente tendem a ser parciais em suas marcações para a equipe da casa, prejudicando, assim, a equipe visitante. Fato que demonstra que o uso da nova tecnologia não eliminou o histórico fenômeno das arbitragens tendenciosas.

Outro fato que me faz levantar questionamentos é a demora na tomada de decisões. Por que a imagem que detecta um lance de impedimento pode levar três minutos ou mais para ser mostrada ao público? Em circunstâncias normais, suponho que um mecanismo semiautomático de leitura de movimentos (que escaneia o campo de jogo e traça linhas posicionais dos corpos dos jogadores) deveria resolver o lance com rapidez. A demora na exibição do resultado final, ainda que por razões técnicas (ou em vista de discussões sobre a jogada), é motivo suficiente para levantar suspeitas. Afinal, a imagem exibida ao público é a mesma vista e utilizada pelos árbitros? Existiram câmeras com resultados divergentes? Se existirem, quais critérios determinaram o seu não uso? A demora ocorreu na análise do lance ou apenas na produção da animação televisiva a ser exibida? 

Em síntese, a questão que mais me incomoda é a seguinte: a imagem que vemos na televisão (e que a torcida vê no telão dos estádios) mostra um recorte da realidade, mas não temos nenhuma noção do processo que levou àquele resultado. Como esporte das multidões, o futebol deveria ser mais transparente, submetendo-se à realização periódica de auditorias independentes por entidades sem vínculo com as federações e a FIFA. O VAR auxilia a melhorar a performance da arbitragem, mas nem por isso torna a decisão obtida pela interpretação humana uma verdade incontestável, isenta de erros, influências ou interesses externos. A postura mais adequada requer a publicidade dos critérios utilizados nas decisões que aplicam as regras do esporte e a realização periódica de auditorias nos equipamentos e processos técnicos aplicados pelos assistentes de vídeo. Aliás, algo que o futebol mundial nunca teve foi uma cultura de prestação de contas, tornando seus negócios uma verdadeira caixa-preta.


Referências:

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE FOOTBALL ASSOCIATION (FIFA). Semi-automated offside technology. Zurique: FIFA, 17 jul. 2023. Disponível em: https://inside.fifa.com/innovation/world-cup-2022/semi-automated-offside-technology. Acesso em: 23 jul. 2026.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE FOOTBALL ASSOCIATION (FIFA). Video Assistant Referee (VAR). Zurique: FIFA, 8 dez. 2022. Disponível em: https://inside.fifa.com/en/innovation/world-cup-2022/video-assistant-referee-var. Acesso em: 23 jul. 2026.

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

GARRETSEN, Harry; STOKER, Janka I.; ALESSIE, Rob. Who rules in times of the Video Assistant Referee? On referees’ decision making in football. Psychology of Sport and Exercise, v. 81, art. 102941, p. 1–5, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2025.102941.

HELD, Jan; CIOPPA, Anthony; GIANCOLA, Silvio; HAMDI, Abdullah; GHANEM, Bernard; VAN DROOGENBROECK, Marc. VARS: Video Assistant Referee System for automated soccer decision making from multiple views. arXiv, 2023. DOI: https://doi.org/10.48550/arXiv.2304.04617. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2304.04617. Acesso em: 23 jul. 2026.

IŞIN, Ali; YI, Qing. Does video assistant referee technology change the magnitude and direction of home advantages and referee bias? A proof-of-concept study. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, v. 16, art. 21, 2024. DOI: https://doi.org/10.1186/s13102-024-00813-9.

SPITZ, Jochim; WAGEMANS, Johan; MEMMERT, Daniel; WILLIAMS, A. Mark; HELSEN, Werner F. Video assistant referees (VAR): the impact of technology on decision making in association football referees. Journal of Sports Sciences, v. 39, n. 2, p. 147–153, 2021. DOI: https://doi.org/10.1080/02640414.2020.1809163.

sábado, 27 de junho de 2026

PARA ALÉM DE UM SIMPLES PRAZER

 Por Rogério Rocha

Imagem ilustrativa criada por Inteligência Artificial


Outro dia, vi e ouvi o chileno Roberto Bolaño, numa entrevista, fazer uma confissão no mínimo interessante: que seu maior prazer estava na leitura, não na escrita. Na mesma ocasião, afirmou que, se ficasse rico, deixaria de escrever. Tais considerações podem soar estranhas quando vindas de um grande escritor, mas é justamente por isso que ganham força, sobretudo ao ressaltarem, nas entrelinhas, que a literatura começa com o leitor.

Compreendo o que o autor quis dizer, pois, em mim, essa opinião encontra concordância quase instantânea. A leitura sempre me proporcionou prazer maior e mais duradouro que a escrita. Escrever é um ato antinatural, de natureza argumentativa, que demanda muito da racionalidade lógica, um trabalho de especialista, uma luta inglória com as palavras diante da persistente suspeita quanto ao caminho escolhido. Ler, ao contrário, é um ato de entrega, uma abertura, um estado de recepção (amorosa ou não) do produto do esforço criativo de outrem. Quando leio, mesmo que conteúdos de extrema complexidade, percebo que não preciso provar nada a ninguém. Não preciso vencer a batalha contra o vazio da página (ou da tela em branco). Não necessito construir a arquitetura de um novo mundo. Só preciso caminhar pelo texto: posso me perder em devaneios, avançar de forma rápida, voltar a um capítulo, demorar-me em um parágrafo ou outro, para, simplesmente, esquecer, por um tempo, as agruras cotidianas.

A escrita tem seus méritos, é verdade. Há monumentos colossais erigidos em imagens, formas e ritmos que se acomodam em ideias de rara beleza e vigor, ganhando vida fora da mente de seus criadores. Chegar a esse estágio de excelência exige, entretanto, disciplina férrea, altas doses de paciência e coragem suficiente para lidar com o sentimento constante da iminência do fracasso. Exige, principalmente, compreender a distância que há entre o que pretendemos e aquilo que conseguimos colocar no papel. O texto sonhado, intuído, almejado, é quase sempre muito mais bonito do que o que de forma efetiva é produzido. Em meio a esse trajeto, entre o que foi idealizado e o realmente atingido, aparece, por fim, a obra: o efeito estético de um ofício artístico que contabiliza derrotas e vitórias.

A leitura proporciona múltiplas experiências; nos permite, dentre outras coisas, viver vidas sem a obrigação de criá-las. Somos preenchidos pelas visões nascidas de outros intelectos e reelaboradas pelo nosso. Somos tocados por sensibilidades que nos convidam a habitar universos em circunstâncias similares ou diferentes das nossas. Uma obra só se perfaz quando alguém a lê. Um livro fechado é um objeto que não cumpre a sua função social. Por esse motivo, o leitor ocupa um lugar central na literatura. Afinal, é ele quem valida o pacto ficcional (ou narrativo) com o autor; quem empresta significados às palavras; quem dá corpo às personagens; quem atualiza o conteúdo de um texto escrito há décadas ou séculos. Sem ele, até o maior dos escritores vira um nada, sem reconhecimento.

Tenho me convencido de que um dos equívocos de quem se dedica a escrever em nossa época está no fato de que lemos menos do que deveríamos e escrevemos impulsionados pela pressa, sem amadurecer ideias, ou seja, sem deixar que se consolidem em nós. Essa inversão de fatores empobrece profundamente a linguagem. Afinal, o bom texto nasce, quase sempre, de uma longa convivência com outros textos e com as percepções de autoras e autores de determinada tradição literária. Deriva, portanto, de leitura, pensamento, reflexão, interpretação, compreensão de nexos, correlações e significados. E todas essas coisas requerem tempo. Portanto, creio que, para escrever bem, é preciso ter sido previamente "atravessado" por leituras de vários tipos, épocas, origens e níveis de dificuldade.

Ler e reler, por sua vez, são gestos de elevada humildade intelectual. A releitura nos modifica porque já não somos os mesmos diante das páginas com as quais, em alguma época de nossas vidas, havíamos tomado contato. Um romance, um poema, um ensaio, uma crônica, um conto, um artigo de opinião, uma carta, quando retornam às nossas mãos (ou aos nossos olhos), podem revelar detalhes antes não percebidos. O livro permanece o mesmo, mas o leitor não. A experiência, nessas condições, é claramente renovadora.

Quando penso na minha relação com os livros, percebo que a leitura, junto à paixão pela oratória, sempre foi uma das formas mais genuínas de expressão da liberdade, o que não ocorre com a escrita. Escrever me mostrou (e tem me mostrado) vários caminhos, me trouxe algum reconhecimento, levou-me a adestrar certas inquietações e ensinou-me formas sistematizadas de organizar as ideias. Mas ler me deu algo maior: a riqueza de um mundo interior.

Nesse sentido, embora à primeira vista possa parecer diferente, a graduação hierárquica e afetiva que proponho, entre o prazer da leitura e o desafio da escrita, não elimina o que sinto em relação a essas duas magníficas experiências humanas. No âmago do que disse naquela entrevista, Bolaño sabia que a literatura não é "propriedade privada" de quem escreve, visto que também pertence a quem lê e a transforma em uma das partes mais valiosas e significativas de sua vida.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Vídeo: "O filósofo que desmascarou a vaidade"



 Neste vídeo, falo sobre a obra "Reflexões sobre a vaidade dos homens", do filósofo Matias Aires. 

Acompanhem!

O filósofo que o Brasil não reconheceu

 


Por Rogério Henrique Castro Rocha


Ao reler Matias Aires, tenho a impressão de estar diante de um autor que não recebeu, no Brasil, atenção proporcional à sua importância. Nascido em São Paulo, em 27 de março de 1705, ele é tido como “o primeiro filósofo brasileiro”, embora haja quem rejeite essa denominação pelo fato de sua inserção intelectual ter ocorrido no universo lusitano. 

Mesmo assim, o ponto central permanece: trata-se de um dos fundadores da reflexão filosófica, ligado ao Brasil pela origem, e de um autor cuja obra nos permite repensar a cronologia reducionista que costuma datar o início da filosofia brasileira em períodos muito mais tardios, isto é, no século XIX.

O centro da sua produção está situado em Reflexões sobre a vaidade dos homens, obra publicada em Lisboa no ano de 1752. Nesse livro, Aires toma a vaidade como uma força enraizada na vida humana. 

A vaidade, no horizonte dessa obra, aparece como reação humana à precariedade e à finitude da vida. Sendo assim, diria ele, buscamos durar no olhar alheio porque sabemos que somos transitórios.  

Desse modo, quando o filósofo examina o amor-próprio, a necessidade de aprovação e o jogo de aparências nos quais nos enredamos, acaba por realizar um diagnóstico de natureza universal. Talvez por isso, ainda consiga se encaixar na leitura dos indivíduos de um século que intensificou a exposição pública, a disputa por atenção e a fabricação permanente de imagens pessoais supostamente positivas e favoráveis aos juízos de aprovação social.

Ao ler suas páginas, vejo um pensador empenhado em mostrar que boa parte das nossas ações, inclusive as que parecem nobres, está atravessada pelo desejo de distinção, reconhecimento e prestígio. Nesse sentido, a vaidade, enquanto categoria central do seu pensamento, funciona como chave interpretativa para compreender as ações humanas.

Chama negativamente a minha atenção, entretanto, o fato de saber que Matias Aires, ainda hoje, é pouco reconhecido e não foi incorporado ao repertório filosófico comum, muito menos ao cânon de nossa história da filosofia. Ainda assim, quando me perguntam se ele pode ser considerado o primeiro filósofo brasileiro, minha resposta é afirmativa: ele é o primeiro grande filósofo nascido no Brasil com obra reconhecida. E quando me perguntam sobre sua importância hoje, eu afirmo que ela é dupla. De um lado, ele amplia a história da filosofia no Brasil; de outro, nos oferece uma possibilidade de leitura moral e psicológica da alma humana, soando, por isso, surpreendentemente contemporâneo.  

Referências

AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens, ou discursos moraes sobre os effeitos da vaidade. Lisboa: Officina de Francisco Luiz Ameno, 1752. Registro bibliográfico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin/USP.  

ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. “Matias Aires”. Verbete institucional.  

BERNARDO, Luís Manuel A. V. “A filosofia de Matias Aires: uma ciência do tempo?”. Argumentos: Revista de Filosofia (UFC) / ANPOF.  

COSTA, Rodrigo. “História da filosofia e exclusão de filosofias: o caso Matias Aires”. Problemata.  

PINTO, Paulo Roberto Margutti. “Reflexões sobre a vaidade dos homens: Hume e Matias Aires”. Kriterion: Revista de Filosofia.  


SILVA, Paulo José Carvalho da. “A dor da alma nas reflexões sobre a vaidade de Matias Aires”. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.

sábado, 7 de março de 2026

A divina comédia e os percursos tortuosos da condição humana

 


Rogério Henrique Castro Rocha[1]

 

 

“Da nossa vida, em meio da jornada,

achei-me numa selva tenebrosa,

tendo perdido a verdadeira estrada.”

  

A obra mais famosa de Dante Alighieri foi escrita há mais de 705 anos. Ainda assim, seus versos continuam a impactar gerações de leitores que tiveram contato com a obra mestra de sua criação.

A “Divina Comédia”, seu poema mais sublime, é ao mesmo tempo a coroação de seu amor platônico por Beatriz de Folco Portinari (a quem dedicou vários de seus escritos mais conhecidos) e o ápice de uma imaginação que legou ao mundo um escrito insuperável em linguagem popular.

Ressalte-se que a comédia de que trata Dante é divina, ou seja, não é uma comédia qualquer. Ao contrário da tragédia, possui um final feliz (e no Paraíso, por sinal). Seu sentido, portanto, não é simples e raso; é denso, amplo, complexo, dramático. Afinal, trata-se de um livro cheio de alegorias, simbolismos e significações. Uma obra de fantasia cujos limites estéticos e criativos são, ainda hoje, difíceis de serem emulados.

Impende frisar ainda, em torno de sua importância (BRAZ, 2023), que ela “mostrou como uma língua que não fosse o latim (...), pôde ser capaz de criar, sem nenhuma intimidação, uma obra-prima na altura da Odisseia, da Eneida, do teatro grego.”

O poema dantesco, composto por versos decassílabos organizados em tercetos com rimas dispostas no esquema ABA/BCB/CDC, ao longo de cem cantos, metaforiza o drama da condição humana numa narrativa que confere à personagem central (o próprio Dante) e às personagens que o circundam (Virgílio, Beatriz, São Bernardo e outras figuras conhecidas da época) a tarefa de empreender uma jornada de caráter ascensional por vários planos, círculos ou mundos, com múltiplas divisões, para reencontrar “o bom caminho abandonado.”

Daí o motivo pelo qual a personagem inicia a aventura nos círculos mais profundos do Inferno, galgando, não sem apuros e descobertas, os patamares superiores do Purgatório e o tão almejado Paraíso, imagens que possuíam grande força no imaginário do período medieval.

No trajeto, será guiado pelo poeta Virgílio e, posteriormente, adentrará o Paraíso, alcançando o Céu ladeado por Beatriz, eterna musa idealizada que, na obra, assume a tarefa de retirá-lo da “selva escura”, ajudá-lo a reencontrar a “verdadeira estrada” e escapar do inferno.

Essa mulher idealizada, dentro do enredo, é também aquela que, por meio do seu espírito amoroso e iluminado, simboliza a sublimação da virtude. No céu, Dante encontrará, por fim, o lume do Sol, de Deus, da vida verdadeira, contemplada na transformação íntima que se lhe é operada após a árdua travessia desde a escuridão da selva, na qual estivera perdido e desviado (como vemos no Inferno - Canto I), até a graça, o enlevo e a glória dos céus paradisíacos, onde, serenada a agitação do ânimo, a personagem central, enfim, abandona a errância.

O livro, além de cativante, possui inúmeras alegorias e mensagens que podem ensinar muito aos leitores. Dentre elas, há algumas que me chamam atenção.

A primeira é a de que toda jornada concorre, em algum grau, para a abertura da possibilidade de uma reforma interior. Além de conferir conhecimento a quem a executa, a travessia da vida, com seus percalços e surpresas, é capaz de moldar uma nova pessoa, dotando-a de outras experiências, valores e virtudes.

A segunda diz respeito às diversas maneiras encontradas para julgar, criticar e condenar a ganância, os vícios e as deformações do poder.

A terceira denuncia a extrema ambiguidade da condição humana, capaz de queda e ascensão, sombra e luz, bondade e maldade. Isso mostra que temos em nós, concomitantemente, as vertentes desse pêndulo, as feras e os monstros que personificam nossas vicissitudes.

Para finalizar, devo afirmar que a mensagem que mais toca minha alma, no que se refere ao humanismo radical presente na obra-prima de Dante Alighieri, é justamente a da alteridade. Isso me leva a deduzir que, se não fossem seus guias — aqueles que o acompanharam durante a difícil e longa jornada —, Dante talvez não conseguisse chegar ao fim e alcançar o paraíso. Trouxe, portanto, para mim a sólida constatação de que ninguém se salva sozinho.

 

 

Referências:

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. D. Giosa: São Paulo, 2003.

BRAZ, Renan. Publicação de “A Divina Comédia”. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/133070. Acesso em 06/03/202 

MELO, Alessandro. A divina comédia sob a luz do cristianismo. 3. ed. Divinópolis, MG: Ed. do autor, 2023.



[1]      Graduado em Direito e Filosofia pela UFMA, Mestre em Criminologia pela UFP – Porto/PT, escritor, palestrante e livre pensador.


Postagens populares

Total de visualizações de página

Páginas