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SÃO LUÍS, MARANHÃO, Brazil

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O filósofo que o Brasil não reconheceu

 


Por Rogério Henrique Castro Rocha


Ao reler Matias Aires, tenho a impressão de estar diante de um autor que não recebeu, no Brasil, atenção proporcional à sua importância. Nascido em São Paulo, em 27 de março de 1705, ele é tido como “o primeiro filósofo brasileiro”, embora haja quem rejeite essa denominação pelo fato de sua inserção intelectual ter ocorrido no universo lusitano. 

Mesmo assim, o ponto central permanece: trata-se de um dos fundadores da reflexão filosófica, ligado ao Brasil pela origem, e de um autor cuja obra nos permite repensar a cronologia reducionista que costuma datar o início da filosofia brasileira em períodos muito mais tardios, isto é, no século XIX.

O centro da sua produção está situado em Reflexões sobre a vaidade dos homens, obra publicada em Lisboa no ano de 1752. Nesse livro, Aires toma a vaidade como uma força enraizada na vida humana. 

A vaidade, no horizonte dessa obra, aparece como reação humana à precariedade e à finitude da vida. Sendo assim, diria ele, buscamos durar no olhar alheio porque sabemos que somos transitórios.  

Desse modo, quando o filósofo examina o amor-próprio, a necessidade de aprovação e o jogo de aparências nos quais nos enredamos, acaba por realizar um diagnóstico de natureza universal. Talvez por isso, ainda consiga se encaixar na leitura dos indivíduos de um século que intensificou a exposição pública, a disputa por atenção e a fabricação permanente de imagens pessoais supostamente positivas e favoráveis aos juízos de aprovação social.

Ao ler suas páginas, vejo um pensador empenhado em mostrar que boa parte das nossas ações, inclusive as que parecem nobres, está atravessada pelo desejo de distinção, reconhecimento e prestígio. Nesse sentido, a vaidade, enquanto categoria central do seu pensamento, funciona como chave interpretativa para compreender as ações humanas.

Chama negativamente a minha atenção, entretanto, o fato de saber que Matias Aires, ainda hoje, é pouco reconhecido e não foi incorporado ao repertório filosófico comum, muito menos ao cânon de nossa história da filosofia. Ainda assim, quando me perguntam se ele pode ser considerado o primeiro filósofo brasileiro, minha resposta é afirmativa: ele é o primeiro grande filósofo nascido no Brasil com obra reconhecida. E quando me perguntam sobre sua importância hoje, eu afirmo que ela é dupla. De um lado, ele amplia a história da filosofia no Brasil; de outro, nos oferece uma possibilidade de leitura moral e psicológica da alma humana, soando, por isso, surpreendentemente contemporâneo.  

Referências

AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens, ou discursos moraes sobre os effeitos da vaidade. Lisboa: Officina de Francisco Luiz Ameno, 1752. Registro bibliográfico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin/USP.  

ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. “Matias Aires”. Verbete institucional.  

BERNARDO, Luís Manuel A. V. “A filosofia de Matias Aires: uma ciência do tempo?”. Argumentos: Revista de Filosofia (UFC) / ANPOF.  

COSTA, Rodrigo. “História da filosofia e exclusão de filosofias: o caso Matias Aires”. Problemata.  

PINTO, Paulo Roberto Margutti. “Reflexões sobre a vaidade dos homens: Hume e Matias Aires”. Kriterion: Revista de Filosofia.  


SILVA, Paulo José Carvalho da. “A dor da alma nas reflexões sobre a vaidade de Matias Aires”. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.

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