Por Rogério Rocha
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| Imagem ilustrativa criada por Inteligência Artificial |
Outro dia, vi e ouvi o chileno Roberto Bolaño, numa entrevista, fazer uma confissão no mínimo interessante: que seu maior prazer estava na leitura, não na escrita. Na mesma ocasião, afirmou que, se ficasse rico, deixaria de escrever. Tais considerações podem soar estranhas quando vindas de um grande escritor, mas é justamente por isso que ganham força, sobretudo ao ressaltarem, nas entrelinhas, que a literatura começa com o leitor.
Compreendo o que o autor quis dizer, pois, em mim, essa opinião encontra concordância quase instantânea. A leitura sempre me proporcionou prazer maior e mais duradouro que a escrita. Escrever é um ato antinatural, de natureza argumentativa, que demanda muito da racionalidade lógica, um trabalho de especialista, uma luta inglória com as palavras diante da persistente suspeita quanto ao caminho escolhido. Ler, ao contrário, é um ato de entrega, uma abertura, um estado de recepção (amorosa ou não) do produto do esforço criativo de outrem. Quando leio, mesmo que conteúdos de extrema complexidade, percebo que não preciso provar nada a ninguém. Não preciso vencer a batalha contra o vazio da página (ou da tela em branco). Não necessito construir a arquitetura de um novo mundo. Só preciso caminhar pelo texto: posso me perder em devaneios, avançar de forma rápida, voltar a um capítulo, demorar-me em um parágrafo ou outro, para, simplesmente, esquecer, por um tempo, as agruras cotidianas.
A escrita tem seus méritos, é verdade. Há monumentos colossais erigidos em imagens, formas e ritmos que se acomodam em ideias de rara beleza e vigor, ganhando vida fora da mente de seus criadores. Chegar a esse estágio de excelência exige, entretanto, disciplina férrea, altas doses de paciência e coragem suficiente para lidar com o sentimento constante da iminência do fracasso. Exige, principalmente, compreender a distância que há entre o que pretendemos e aquilo que conseguimos colocar no papel. O texto sonhado, intuído, almejado, é quase sempre muito mais bonito do que o que de forma efetiva é produzido. Em meio a esse trajeto, entre o que foi idealizado e o realmente atingido, aparece, por fim, a obra: o efeito estético de um ofício artístico que contabiliza derrotas e vitórias.
A leitura proporciona múltiplas experiências; nos permite, dentre outras coisas, viver vidas sem a obrigação de criá-las. Somos preenchidos pelas visões nascidas de outros intelectos e reelaboradas pelo nosso. Somos tocados por sensibilidades que nos convidam a habitar universos em circunstâncias similares ou diferentes das nossas. Uma obra só se perfaz quando alguém a lê. Um livro fechado é um objeto que não cumpre a sua função social. Por esse motivo, o leitor ocupa um lugar central na literatura. Afinal, é ele quem valida o pacto ficcional (ou narrativo) com o autor; quem empresta significados às palavras; quem dá corpo às personagens; quem atualiza o conteúdo de um texto escrito há décadas ou séculos. Sem ele, até o maior dos escritores vira um nada, sem reconhecimento.
Tenho me convencido de que um dos equívocos de quem se dedica a escrever em nossa época está no fato de que lemos menos do que deveríamos e escrevemos impulsionados pela pressa, sem amadurecer ideias, ou seja, sem deixar que se consolidem em nós. Essa inversão de fatores empobrece profundamente a linguagem. Afinal, o bom texto nasce, quase sempre, de uma longa convivência com outros textos e com as percepções de autoras e autores de determinada tradição literária. Deriva, portanto, de leitura, pensamento, reflexão, interpretação, compreensão de nexos, correlações e significados. E todas essas coisas requerem tempo. Portanto, creio que, para escrever bem, é preciso ter sido previamente "atravessado" por leituras de vários tipos, épocas, origens e níveis de dificuldade.
Ler e reler, por sua vez, são gestos de elevada humildade intelectual. A releitura nos modifica porque já não somos os mesmos diante das páginas com as quais, em alguma época de nossas vidas, havíamos tomado contato. Um romance, um poema, um ensaio, uma crônica, um conto, um artigo de opinião, uma carta, quando retornam às nossas mãos (ou aos nossos olhos), podem revelar detalhes antes não percebidos. O livro permanece o mesmo, mas o leitor não. A experiência, nessas condições, é claramente renovadora.
Quando penso na minha relação com os livros, percebo que a leitura, junto à paixão pela oratória, sempre foi uma das formas mais genuínas de expressão da liberdade, o que não ocorre com a escrita. Escrever me mostrou (e tem me mostrado) vários caminhos, me trouxe algum reconhecimento, levou-me a adestrar certas inquietações e ensinou-me formas sistematizadas de organizar as ideias. Mas ler me deu algo maior: a riqueza de um mundo interior.
Nesse sentido, embora à primeira vista possa parecer diferente, a graduação hierárquica e afetiva que proponho, entre o prazer da leitura e o desafio da escrita, não elimina o que sinto em relação a essas duas magníficas experiências humanas. No âmago do que disse naquela entrevista, Bolaño sabia que a literatura não é "propriedade privada" de quem escreve, visto que também pertence a quem lê e a transforma em uma das partes mais valiosas e significativas de sua vida.

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