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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O leitor como metáfora: um olhar do mundo pelas letras vivas

 

Rogério Henrique Castro Rocha[1]

 

“Deve-se ao leitor a existência das editoras e o sentido do seu trabalho.” [Alberto Manguel]

 

Somos, na natureza, a única espécie animal que lê e conta histórias. Que decifra e decodifica a linguagem inscrita em letras, sinais gráficos criados por nós mesmos. A única que dá sentido a elas e que, a partir do registro histórico e cultural de uma língua, cria e escreve sobre mundos imaginados, levando luz ao seu próprio mundo.

A identidade da vida parece necessitar de um reencantamento por meio da criação de um espaço de sentido que se utiliza do artifício da metaforização daquele que lê o grande livro do mundo. Mas como definir, então, o indivíduo leitor?

O escritor e bibliófilo argentino-canadense Alberto Manguel nos propõe três importantes metáforas para compreendermos essa personagem singular. São elas: a do leitor como viajante, como torre de marfim e como traça. Poderíamos falar também em um leitor rato e um leitor louco? Sim, poderíamos. Mas nossa exposição ficará restrita, aqui, unicamente, aos três conceitos apontados.

Se o mundo é um livro a ser lido, sugere Manguel [2019], a vida é o plano dessa viagem e o leitor é justamente esse viajante que avança, prossegue, caminha e dá saltos no tempo, de um mundo a outro, de um lugar a outro dentro do texto, o que aqui chamaremos de seu “espaço-tempo” alternativo. Daí a tão conhecida expressão ‘viajar no texto’. Ou seja, do leitor iniciante ao experimentado, todos ‘viajam’ nesse espaço-tempo [do espaço-texto].

O ato da leitura subentende, pois, um empenho e uma jornada através do espaço-texto, base e plataforma de lançamento para ‘outros mundos’. Ler é empenhar-se numa caminhada de descobertas onde cada um dará seu sentido às coisas. E a leitura é nada mais é do que a vida em viagem. Sendo assim, perguntarmo-nos sobre por que lemos é como perguntar sobre por que viajamos. Ademais, a leitura é uma experiência mental e corpórea, através de um processo que envolve a memória [tudo que é lido e que se torna visão em retrospecto], um presente em devir [quando dá-se o ato de ler] e um futuro, formado pela expectativa de reviver essa experiência [com novas leituras] e pela angústia diante de todo um universo de livros e textos que nunca confrontaremos.


 

Dando continuidade ao diálogo com as ideias manguelianas, chegamos à metáfora bíblica da torre [a de marfim ou aquela em que Montaigne tinha uma biblioteca e seu gabinete de leitura]. A torre guarda o simbolismo da pureza, da virgindade, do enclausuramento. O leitor ou leitora na torre de marfim é alguém que se retira do espaço social para encerrar-se em seu próprio mundo, passando a conviver ensimesmado com seus livros. Temos, portanto, a imagem de um santuário, de um refúgio ou abrigo quase inexpugnável. Símbolo também ligado, na história da literatura, à figura do intelectual diferenciado e daquele que cultiva um ideal de vida meditativa.


 

O terceiro e último perfil de leitor está vinculado à figura da traça [Lepisma saccharina], inseto primitivo que se arrasta vagarosamente e se alimenta, dentre outras coisas, da lã [das roupas e tecidos] e do papel das páginas dos impressos, dentre eles os livros. Esse bicho nos remete, segundo Alberto Manguel [2019] à representação dos que ‘devoram’ os livros. O que implica em falarmos na forma como lidamos com esses objetos culturais e, por conseguinte, em como lidamos com a própria leitura. Trata-se, portanto, de um leitor arrebatado, que fica intumescido de palavras, não se contenta com a viagem ou a torre. Necessita de algo além. Correndo o risco de perder a sanidade, desenvolve um comportamento quase patológico.


 

Podemos observar que, ao ler, estabelecemos disposições de vontade em nossas relações com o mundo exterior, interior e as obras impressas chamadas livros. Sendo assim, o leitor-viajante termina por conhecer o mundo pelos múltiplos caminhos imaginados pelo ato demiúrgico daqueles que plasmaram universos em seus escritos. Então, a leitura consiste também num comportamento ativo que leva os leitores a viajar pelas estradas do grande livro do mundo. Por sua vez, o leitor na torre de marfim, tal como o monge solitário, em seu reino de beleza interior, submerge tranquilamente nas paisagens da literatura, seu refúgio e abrigo.

Segundo Manguel:                  

 

Ler, acima de todas as outras atividades, propiciava um espaço no qual a mente poderia descolar de seu entorno cotidiano e dedicar-se a assuntos mais elevados [...] permitindo que o texto transportasse o leitor numa jornada interior”. [2017, p.88]

 

Por fim, a metáfora do leitor-traça, típico fanático, ‘devorador’ de livros, conecta-se ao fato da atitude como lidamos com a leitura. Trata-se, sobretudo, de um exemplo paradigmático de leitor arrebatado, possuído por uma pulsão, uma força maior que si mesmo. Força que cria um elo inquebrantável entre sua necessidade e o prazer extraído da fruição atenta daquelas páginas, numa experiência que muito se aproxima de uma espécie de suspensão do tempo.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que a leitura é uma forma de ser e estar no mundo. O leitor, enfim, aparece como aquilo que é: um aprendiz da vida. Ademais, a leitura e os mundos saídos da imaginação criativa, promovem o reencantamento do real. Afinal, aquilo que chamamos realidade fica muito mais interessante quando tingida pelas cores que o imaginário e seus mundos imaginados proporcionam.

 

Referência:

MANGUEL, Alberto. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: SESC São Paulo, 2017.

Verbete: traça. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lepisma_saccharina Acesso em:25/01/2026.



[1] Escritor, servidor público, livre pensador, Bacharel em Direito [UFMA], Licenciado em Filosofia [UFMA], Mestre em Criminologia pela Universidade Fernando Pessoa [Porto – Portugal], Pós-graduado em Paradigmas na pesquisa em Ética [IESMA/Faculdade Católica do Maranhão]. Criador da Iniciativa EIDOS, do DUO Litera [projetos literário-filosóficos] e dono do canal Hipertexto com Rogério Rocha [YouTube].

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

FIM DE NOITE


Por Rogério Rocha

 

Quando cheguei ao Bar do Léo, o vento morno da madrugada de São Luís envolvia o bairro do Vinais. Aquele leve mormaço, muito comum durante as noites de verão, era um convite para tomar umas cervejas e jogar conversa fora.

Como sempre, lá estavam, nas paredes daquele reduto boêmio da cidade, as famosas capas de discos de vinil, cassetes e caixas de CD's, que se destacavam sob a iluminação fraca que vinha do teto. Aliás, o espaço é cheio de relíquias de vários períodos da nossa música, tendo uma decoração marcada pela presença de uma dezena de itens dignos de serem encontrados num bom antiquário.

Há anos vinha tentando encontrá-lo, mas as nossas vidas não ajudavam. Naquele dia, porém, o vento da sorte soprou a nosso favor. Com o bar estranhamente vazio, encontrei meu amigo sentado em um lugar mais escondido, bebendo uma gelada.

Quando cheguei à mesa, já encontrei a segunda garrafa pela metade. Notei minhas mãos suadas. Talvez pelo nervosismo ou, quem sabe, pela temperatura um tanto elevada para o final da noite. Enfim, não é sempre que se tem a oportunidade de tomar umas com um gênio da música no bar mais cult da cidade.

Dei-lhe um abraço forte, retribuído com um sorriso e um convite para que me sentasse na cadeira ao lado. Ficamos mais de duas horas conversando sobre tudo o que puderem imaginar. De discos voadores a símbolos mágicos, de filosofia a budismo, do Egito aos Estados Unidos, passando pela música, obviamente. Afinal, a música sempre foi a praia dele.

— E então, Rogerito, é verdade que o rock virou uma espécie de servidor público que bate ponto? Tá só mesmice? – perguntou com a voz levemente arrastada.

— Olha... sei lá! Acho que ainda existe uma certa atitude em algumas figuras, mas é algo muito raro. O gênero está perdendo vigor; muitos nomes estão morrendo ou se aposentando. Acho que a música está sendo engolida pelo lixo das playlists do Spotify – respondi.

Meu amigo gargalhou de forma estridente ao ouvir meu comentário.

— Olha, meu rei, vou te contar! Quando comecei, em 1973, a gente gravava num estúdio com mesa de quatro canais e um técnico de som. Mas a coisa era séria. Hoje, é um horror de gente desafinada, qualquer um quer ser cantor. E dá-lhe autotune em toda música sem qualidade.

Nesse momento, o som de um disco de vinil entoou os primeiros acordes de “Tente outra vez”, tocando baixinho. O seu Léo, dono do bar, atrás do balcão, limpava os copos americanos com a destreza de um ourives, enquanto olhava para a gente.

— E as letras das músicas de hoje, meu amigo? Você gosta? – perguntei.

— As letras são descartáveis: cabem num hit de três minutos, não dizem nada, não trazem mensagem... Não fazem minha cabeça nem cabem no meu coração.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, saboreando minha cerveja e remoendo nossas reflexões. No ambiente, àquela hora vazio, ecoava a voz do Paul na triste e bela “Golden slumbers”.

De súbito, meu companheiro de mesa virou-se para o balcão e falou:

— Ô, seu Léo! Manda aí qualquer música romântica do Elvis! Deu vontade de ouvir agora.

O dono do bar virou-se lentamente, com expressão de raiva e disse:

— O que é isso? Não, aqui não. Você não leu a plaquinha na parede? É expressamente proibido ao freguês pedir música aqui.

— Como assim, meu senhor?

— Aqui tem lei! Eu faço a lei e crio a regra. O cliente não pede música. Quem manda na seleção sou eu. – reforçou o dono da casa.

Indignados, entreolhamo-nos e balançamos a cabeça, impressionados com a situação. Descontentes com o comportamento daquele tipo autoritário, começamos a contestá-lo.

—Ah, entendi… O mestre põe o que quiser, quando quiser, e o Zé Mané que ouça caladinho. Muito bem! Temos aqui um quartel da ditadura cultural vestido com roupa de cult.” – retruquei num tom debochado.

O silêncio seguiu-se àquelas palavras em tom de revolta. A transgressão verbal pairou no ar como gás procurando faísca para o fogo, quase uma bomba prestes a explodir. Sem demora, o proprietário do bar dirigiu-se ao único garçom ainda na casa, determinando:

— Acabou o expediente! Vamos fechar. Retire esses dois daqui agora mesmo!

Para evitar confusão naquele final de noite, pagamos a conta e saímos sem dizer mais nada. Literalmente escorraçados, como bêbados em uma crise de lucidez.

Lá fora, a cidade seguia o curso da madrugada silenciosa.

Raul acendeu um cigarro, expirou lentamente a fumaça e falou com ironia:

— Por quem os sinos dobram, meu amigo? Será que dobram por nós?

Ouvi aquilo intrigado. A cabeça pesada e o inebriamento alcoólico não me permitiram buscar uma resposta. Restou-me um silêncio sem graça.

Sorri e segui até meu carro. Perguntei se não vinha comigo, pois já era tarde. Daria-lhe uma carona.

- Obrigado, meu amigo, mas vou até a estação. Para onde eu moro, só de trem. Vou no trem das sete horas. Um abraço e até a próxima! – disse, virando-se e seguindo pela calçada, subindo a rua.

Despedi-me dele e percebi que aquele ‘tchau’ tinha um quê de adeus para sempre.


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

413



 

Por Rogério Rocha

 

413: é um número. Marca contabilística, arrojo do tempo. Poeira sobre as ruas, cisco que cai das telhas. O orgulho por arder ainda uma fogueira pelas noites de São João. Carruagens, não! Não mais. BMW’s, BYD's, Celtas, Unos, Palios. Gente espremida nos ônibus, calor dos diabos, buracos com fome de chuva, bueiros sem tampa, motoqueiros malucos, calçadas minúsculas, desespero nas transversais, Rua Grande e Santana, Korea, China, China in Box, never mind. Vejo de binóculos, do alto das casas, do mirante de um banco que faliu, o pregoeiro fantasma, os sons de espingardas, barbudos, barbados, Chagas, Machado. Giro o dial sem parar, mas só estanco na pedra que rola nas ondas de um point da 96. Eu sou assim! Não sei vocês. Ainda guardo algum orgulho. Centro que tomba, gente invisível, patrimônio mudo, camelôs revoltados, juçara-açaí. É isso mesmo, é isso aí! Arrasto as sandálias do pescador, sinto o cheiro dos peixes do mercado, ao lado do trilho, da linha do trem-encantado. VLT, LGBT e o gado com bandeiras nas carreatas. Caras e caretas, mutretas, bravatas. E a estátua da liberdade, quem diria, mocinha de pele alva com a tocha e o livro nas mãos. Fofão fofinho, labubu dos infernos, tribufu do cão. Capoeira de Angola na Liberdade. Pode vir! Saio na mão, quebro o pau, viro bicho. Que maldade, mais um caiu do céu no fim da tarde. Que doideira, um outro atirou-se da ponte pensando besteira. Já era, foi anteontem. Deu para ver das torres gêmeas, no espigão do horizonte. 413, 413, 413, só para lembrar; a memória falha, a alegria engole a tiquira das Tulhas e a batida de maracujá. Reinvento o molejo de uma dança sacana que me ensinaram. Continuo a tropeçar nas mesmas pedras, a urinar nas muradas. Os problemas que me perseguem são os mesmos. Há mil razões para ser quem eu sou, estar como estou, chegar onde cheguei. Comemoro o luxo e a pobreza, a falência e a riqueza, o navio que afundou no banco de areia, o petróleo indo embora na correnteza. Ah, sim! Há razões para comemorar. Quero shows na praça, carnaval, facções detrás das grades, febris arruaças. Quero, com pressa, as soluções inclusivas. A execução efetiva de todos os planos, a exclusão da política do abandono. Leis que não sejam letra morta, Socorrão vazio, plano diretor. Quero caranguejo, sururu. Mocotó, por favor! Doces em compota, via expressa, mente aberta e ruas tortas. Ver desabar o contraste e as carências, as estatísticas policiais das mortes violentas. Quem sabe um dia, o Barreto seja um barato. E comer no Ferreiro seja menos caro. 413 obras, sobras, dobras, temporais. Mas meu corpo líquido, meu corpo pesado, requer cuidados demais. Para que não fiquem expostas as feridas que trago nas costas, o espaço imaginário, a juventude sem escola, a cultura para os cegos, como esmola. Mas como é bom que o meu nome atravesse fronteiras, projete sonhos em novos circuitos. Num outro mundo, Gullar foi Ferreira, aipim foi macaxeira, peixe frito espetado na peixeira. E as projeções viraram Lume nas paredes brancas, pelos olhos de um Frederico. Fez-se um palco muito rico e um repertório de ilusões. E, sustentando tudo isso, sem decreto ou patrocínio, minhas costas largas, meu largo de amor e extermínio. Sou essa luz que comove, no trajeto de um barco que cruza a baía. 413 enganos: permaneço travessia. Festa e cansaço, memória e esquecimento.

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